Saiba como a menopausa afeta o pavimento pélvico, quais os sintomas da síndrome geniturinária e que tratamentos existem com evidência científica.
A menopausa é uma das transições fisiológicas mais significativas na vida de uma mulher — e uma das mais mal compreendidas no que diz respeito ao pavimento pélvico. Durante décadas, os sintomas urogenitais da menopausa foram tratados como inevitáveis, quando a evidência científica atual mostra claramente que são tratáveis.
Neste artigo, explico o que muda no pavimento pélvico durante a menopausa, que sintomas podem surgir, e quais são as opções terapêuticas com maior evidência científica para proteger a qualidade de vida durante e após esta transição. Explico também os erros mais comuns que identifico nas doentes que chegam à minha consulta — e que, em muitos casos, prolongaram desnecessariamente os seus sintomas durante anos.
O Que Muda no Pavimento Pélvico com a Menopausa
O pavimento pélvico é um conjunto de músculos, ligamentos e tecidos conjuntivos que suportam a bexiga, o útero e o reto e também as estruturas nervosas. Estes tecidos são particularmente sensíveis ao estrogénio — a hormona que diminui progressivamente a partir da perimenopausa.
Os recetores de estrogénio estão presentes na vagina, na uretra, na bexiga e nos ligamentos de suporte pélvico. Quando os níveis desta hormona caem, os tecidos tornam-se mais finos, menos elásticos e mais secos. Esta alteração não acontece de forma abrupta — desenvolve-se ao longo de meses e anos, o que faz com que muitas mulheres não a associem diretamente à menopausa.
As alterações mais comuns que observo são:

Um estudo publicado na PubMed Central, realizado com 252 mulheres em perimenopausa, demonstrou uma correlação significativa entre a diminuição dos níveis hormonais, a redução da força muscular do pavimento pélvico e a deterioração da função sexual. Outro estudo com 163 mulheres confirmou que quanto mais tempo decorre desde a menopausa, maior o grau de disfunção do pavimento pélvico — o que sublinha a importância da intervenção precoce.
A Síndrome Geniturinária da Menopausa
A comunidade científica reuniu estes sintomas sob um nome clínico preciso: síndrome geniturinária da menopausa. Este termo, adotado pela International Society for the Study of Women's Sexual Health e pela North American Menopause Society, é mais abrangente e clinicamente rigoroso do que o termo anterior "atrofia vaginal".
A síndrome inclui:

Ao contrário dos afrontamentos e das perturbações do sono, que tendem a melhorar espontaneamente com o tempo, os sintomas da síndrome geniturinária são crónicos e progressivos se não forem tratados.
Caso Clínico 1
Na minha prática clínica, recebo frequentemente mulheres que chegam com a convicção de que os sintomas que experienciam são "normais para a idade". Uma situação que ilustra bem esta realidade foi a de uma mulher de 54 anos, professora, que veio à consulta por incontinência urinária de urgência — descrevia que não conseguia segurar ao chegar a casa, perdendo urina antes de chegar à casa de banho.
Quando perguntei há quanto tempo tinha estes sintomas, respondeu: "Há uns três anos. Mas sempre pensei que era da menopausa e que não havia nada a fazer." Tinha passado pela menopausa aos 51 anos. Três anos de sintomas sem procurar ajuda.
Na avaliação, confirmei atrofia vaginal marcada, com mucosa vaginal muito adelgaçada e ausência de rugosidades. O biofeedback eletromiográfico mostrou fraqueza muscular moderada com contração de curta duração — o padrão típico de hipotonia associada à privação prolongada de estrogénio.
Pedi análise de urina para excluir infeção urinária ativa, e propus um plano combinado: estrogénio vaginal local, prescrito em coordenação com a ginecologista, e um programa de reabilitação do pavimento pélvico com biofeedback semanal durante 10 semanas.
Ao fim de 6 semanas, referiu redução significativa dos episódios de urgência. Às 10 semanas, os episódios de perda tinham cessado completamente. O exame de biofeedback repetido mostrou melhoria objetiva da força de contração e do tempo de sustentação muscular.
Três anos de sintomas que podiam ter sido tratados em três meses.
Os Erros Mais Comuns Antes de Chegar à Consulta
Uma das realidades que mais me impressiona é o volume de tempo que as mulheres passam a gerir os seus sintomas sem procurar ajuda especializada. O estudo REVIVE, publicado no Journal of Sexual Medicine, encontrou que 56% das 3.046 mulheres pós-menopáusicas com sintomas vulvovaginais já tinham discutido esses sintomas com um profissional de saúde.
Os erros de autogestão que identifico mais frequentemente são:
Usar lubrificantes como única intervenção. Os lubrificantes vaginais são úteis para alívio sintomático imediato — especialmente durante as relações sexuais. Mas não tratam a atrofia subjacente. Uma mulher que usa lubrificante durante anos sem tratar a causa está a gerir um sintoma sem resolver o problema. O estrogénio local, ao contrário, restaura a espessura e a elasticidade dos tecidos — tratando a causa, não apenas o sintoma.
Atribuir todos os sintomas urinários à "velhice". A urgência urinária, a frequência aumentada e a incontinência são frequentemente aceites como consequências inevitáveis da idade. Não são. Na maioria dos casos, têm causas tratáveis — e a menopausa é uma das mais comuns e das que melhor respondem ao tratamento.
Reduzir ou eliminar a atividade sexual. Esta é uma das consequências menos faladas da síndrome geniturinária. A dispareunia leva muitas mulheres a evitar a intimidade — o que, paradoxalmente, agrava a atrofia. A atividade sexual regular mantém a circulação sanguínea vaginal e contribui para a saúde dos tecidos. A interrupção da atividade sexual acelera o processo de atrofia.
Não reportar as infeções urinárias recorrentes. Muitas mulheres tratam cada episódio de infeção urinária com antibióticos sem perceber que estão inseridas num padrão relacionado com a atrofia uretral. Duas ou mais infeções por ano em mulheres pós-menopáusicas devem levar a uma investigação do estado dos tecidos urogenitais — não apenas a mais um ciclo de antibióticos.
Caso Clínico 2
Recebi uma mulher de 49 anos em perimenopausa que descrevia secura vaginal e desconforto durante as relações sexuais há cerca de dois anos. A sua abordagem tinha sido adquirir lubrificantes vaginais numa farmácia, que usava regularmente. "Ajuda no momento, mas a secura está sempre lá", disse-me.
A avaliação revelou atrofia vaginal moderada, com pH vaginal elevado (5,8 — o normal pré-menopausa é abaixo de 4,5) e mucosa pálida e frágil. Não havia infeção. Havia privação estrogénica.
Propus estrogénio vaginal local em creme, com aplicações regulares durante as primeiras semanas e depois em regime de manutenção. Não era necessária terapia hormonal sistémica — os seus outros sintomas de perimenopausa eram ligeiros.
Após 8 semanas, a lubrificação tinha melhorado e o desconforto durante as relações sexuais tinha reduzido substancialmente. O pH vaginal estava normalizado. Continuou com o estrogénio local em manutenção.
O que me chamou a atenção neste caso foi a simplicidade da solução — e o tempo que tinha sido perdido sem ela. Dois anos de desconforto que podiam ter sido resolvidos com uma intervenção segura, bem tolerada e clinicamente estabelecida.
O Que a Ciência Diz Sobre o Tratamento
Estrogénio Local: A Primeira Linha de Tratamento
A evidência científica é clara: o estrogénio local (vaginal) é o tratamento mais eficaz para a síndrome geniturinária da menopausa. O comité científico da International Urogynecological Association — a principal associação científica mundial nesta área — suporta o seu uso como tratamento de primeira linha para os sintomas genitourinários.
O estrogénio local, administrado em forma de creme, anel vaginal ou comprimido vaginal, age diretamente nos tecidos da vagina e da uretra sem absorção sistémica significativa. Os seus efeitos incluem restauração da espessura e rugosidade da mucosa vaginal, melhoria da lubrificação natural, redução da urgência e frequência urinárias, e diminuição do risco de infeções urinárias recorrentes.
Terapia Hormonal Sistémica: Evidência Mais Complexa
A terapia hormonal de substituição sistémica — comprimidos, adesivos ou géis que atuam em todo o organismo — é eficaz para os afrontamentos e para a proteção óssea, mas o seu efeito sobre o pavimento pélvico é mais complexo.
A revisão da International Urogynecological Association concluiu que o estrogénio sistémico pode não beneficiar — e em alguns casos pode mesmo agravar — a incontinência urinária de esforço. Cada caso deve ser avaliado individualmente com o médico assistente.
Reabilitação do Pavimento Pélvico: O Complemento Essencial
A reabilitação do pavimento pélvico é um pilar fundamental do tratamento — não um complemento opcional. Um programa especializado na menopausa inclui treino muscular supervisionado com biofeedback eletromiográfico, técnicas de eletroestimulação para melhoria da força muscular e redução da urgência, e terapia manual para melhorar a elasticidade e a vascularização dos tecidos.
A evidência mostra que a combinação de estrogénio local com reabilitação pélvica produz melhores resultados do que qualquer intervenção isolada.
Caso Clínico 3
Uma situação que exemplifica bem a importância do diagnóstico diferencial foi a de uma mulher de 58 anos que me foi referenciada pelo médico de família por infeções urinárias recorrentes — tinha tido quatro episódios nos últimos 12 meses, todos tratados com antibióticos. A urologista excluíra anomalias anatómicas e calculose renal. Não havia explicação aparente.
Na avaliação, o quadro era de atrofia vaginal e uretral marcada. A uretra estava visivelmente hipermóvel, com teste QT positivo; a mucosa uretral era friável. Havia clínica de hiperatividade vesical associada, o que também contribuía para a suscetibilidade a infeções.
A doente nunca tinha sido informada de que as infeções urinárias recorrentes em mulheres pós-menopáusicas têm, na maioria dos casos, uma componente de atrofia genitourinária tratável. Tinha sido tratada com antibióticos repetidos, que aliviavam cada episódio mas não resolviam a causa subjacente.
O plano incluiu estrogénio vaginal local, reabilitação do pavimento pélvico com foco na hiperatividade vesical e aumento da tonicidade dos músculos locais e acidificação vaginal com géis de ácido láctico.
Nos 12 meses seguintes, não teve qualquer episódio de infeção urinária. A atrofia tinha sido a causa durante todo o tempo — e era tratável.
Quando Procurar Ajuda
Não existe um momento "certo" para procurar ajuda — mas existe um momento muito errado: quando os sintomas já limitam significativamente a vida quotidiana. A intervenção precoce é sempre mais eficaz.
Recomendo consulta especializada a qualquer mulher que experiencie secura vaginal persistente, dor durante as relações sexuais, perda involuntária de urina (mesmo que pequena), urgência urinária que interfira com o quotidiano, infeções urinárias recorrentes (mais de 2 por ano), ou sensação de peso ou pressão pélvica.
Conclusão
A menopausa é uma transição fisiológica, não um declínio inevitável. Os sintomas geniturinários que afetam tantas mulheres pós-menopáusicas são tratáveis com abordagens que combinam estrogénio local e reabilitação do pavimento pélvico. A chave está em procurar avaliação especializada — e em não aceitar que "é da idade" quando existe tratamento eficaz disponível.
Fontes Científicas & Evidência
- PubMed Central: Perimenopausal Study — 252 mulheres (2022)PubMed
- PubMed: GSM Rehabilitation — Why, How & WhenPubMed
- IUGA: Effectiveness of hormones in postmenopausal pelvic floor dysfunction — committee opinionPubMed
- REVIVE — Kingsberg et al. (2013)PubMed
- The 2020 genitourinary syndrome of menopause position statement of The North American Menopause SocietyPubMed
Perguntas Frequentes
Como sei que estou a entrar na menopausa?
A menopausa é confirmada após 12 meses consecutivos sem menstruação. Antes disso, a perimenopausa pode durar vários anos e manifesta-se com irregularidade menstrual, afrontamentos, alterações do sono, secura vaginal e variações de humor. A medição do FSH e do estradiol em análises ao sangue pode ajudar a confirmar a transição.
Quais são as consequências da menopausa para o pavimento pélvico?
A queda dos níveis de estrogénio leva ao adelgaçamento dos tecidos vaginais, uretrais e dos ligamentos de suporte pélvico. As consequências incluem secura vaginal, dor durante as relações sexuais, aumento da frequência urinária, incontinência urinária e, em casos mais avançados, prolapso dos órgãos pélvicos. Estas alterações são tratáveis e não têm de ser aceites como inevitáveis.
O que se deve tomar na menopausa para proteger o pavimento pélvico?
A evidência científica suporta o uso de estrogénio local (vaginal) como tratamento eficaz para os sintomas geniturinários — restaura a espessura e elasticidade dos tecidos sem os riscos sistémicos da terapia hormonal oral. Existem contraindicações para o seu uso e é obrigatório consultar um médico especialista antes da utilização. A reabilitação do pavimento pélvico complementa este tratamento, mantendo a força e coordenação muscular.
Quanto tempo demora a passar os sintomas da menopausa?
Os afrontamentos tendem a diminuir após 2 a 4 anos, mas os sintomas geniturinários — secura vaginal, dor durante as relações sexuais, urgência urinária — tendem a agravar-se progressivamente se não forem tratados. Com tratamento adequado, a maioria das mulheres nota melhoria dentro de 6 a 12 semanas.
A incontinência urinária na menopausa tem cura?
Em muitos casos, sim. A incontinência urinária relacionada com a menopausa é tratável através de reabilitação do pavimento pélvico, estrogénio local e modificações comportamentais. A avaliação especializada é fundamental para identificar o tipo de incontinência e definir o tratamento mais eficaz.

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